“Holy Spider” e a prostituição no Irã
Por Fabiano Rossi Jr.
O filme iraniano “Holy Spider” (2022), do conceituado diretor Ali Abbasi, conta a história do trabalho de jornalismo investigativo de uma repórter chamada Arezoo Rahimi (Zar Amir Ebrahimi) no caso do “Assassino Aranha”, em que Saeed Hanaei (Mehdi Bajestani) mata prostitutas da cidade sagrada de Mashhad por motivações religiosas, enforcando-as com o seu próprio hijab. O longa é inspirado em acontecimentos reais que ocorreram entre agosto de 2000 e agosto de 2001, quando 16 mulheres foram assassinadas pelo serial killer.
Ao acompanhar a saga de Rahimi, é possível notar diversos problemas que cercam a vida de uma mulher iraniana. Em diversos momentos, a jornalista tem que superar o machismo imposto pela ideologia teocrática do seu país, ver o seu trabalho ser desacreditado por autoridades por causa do seu sexo ou ainda, só poder alugar um quarto de hotel após dar uma carteirada no recepcionista.

A prostituição
Já no primeiro minuto do longa de Abbasi, o espectador é apresentado à dura rotina de uma prostituta em um país rígido com o sexo feminino e alinhado a uma visão fechada do islamismo. Deixar o filho sozinho ou sob a tutela de um estranho para ir ao trabalho tentar trazer o sustento da casa, fortes usos de drogas para encarar a péssima realidade, conviver com o vício e com a insegurança.
De acordo com o artigo “Experiências e desafios das mulheres prostitutas no Irã: um estudo fenomenológico qualitativo”, de Javad Yoosefi lebni, Seyed Fahim e Mahnaz Solhi, acredita-se que exista 228.700 prostitutas no país islâmico, mesmo um “crime de honra” e punível com pena de morte por apedrejamento. Isso se dá também pelo fato de a monogamia ser algo sagrado para uma mulher no casamento, porém o mesmo não ocorre para os homens, que pode se casar com quatro mulheres se ele for muçulmano sunita e inúmeras vezes se for xiita. Este último, forma a maioria da população iraniana.
Pela ilegalidade da atividade e forte machismo no país, as prostitutas são um dos grupos mais a margem da sociedade. De acordo com estudo citado acima, estas mulheres são renegadas pela própria família, amigos, vizinhos, são deixadas de lado pelo governo, não tem qualquer tipo de suporte e sofrem todos os tipos de violência possíveis, como físico, verbal, psicológico, econômico e sexual. Uma mulher de 25 anos que vive da prática relata que “alguns dias em que fico na rua alguns dos motoristas que me conheciam passam deliberadamente por cima de mim para me bater, uma ou duas vezes eles me bateram e fugiram”.
Segundo seu estudo, Yoosef Iebni destaca os riscos de vida que estas pessoas passam todos os dias, como o suicídio, doenças sexualmente transmissíveis, aborto inseguro e o vício em drogas e bebidas, consequências do desejo de fuga da realidade, ordem do cliente e da forte objetificação sofrida por elas, que segundo as vítimas, as torna “como pedras”, segundo relato de uma mulher de 30 anos.
Este sentimento ocorre principalmente pela falta de respeito e relação com parceiro sexual. “Esses aspectos receberam menos atenção em estudos anteriores. Dado que a maioria dos clientes procurava apenas a satisfação das suas necessidades sexuais e não havia emoção nas suas relações com as prostitutas, muitas destas mulheres sentiam-se objetificadas”, pontua Iebni.
Por estarem à mercê da sociedade, elas não podem recorrer aos órgãos públicos quando estão doentes ou sofrem algum tipo de violência, pois seriam denunciadas às autoridades e segundo a lei do Irã, isso daria direito ao réu. “Todas as pessoas nos oprimem e não podemos recorrer a ninguém em busca de apoio. Se recorrermos a alguém para reclamar quando sabem que somos prostitutas, eles dão o direito ao réu”, conta uma mulher de 28 anos.
Respeitando a lei e cultura do Irã, o Fahim diz que os órgãos competentes é quem deveriam agir para controlar o caos na saúde pública e na sociedade do país. “Podem ser tomadas medidas para reduzir os efeitos e desafios associados a este fenômeno. Devido às condições socioculturais e à ilegalidade da prostituição, que conduz a uma dupla violação dos direitos fundamentais deste grupo de mulheres, devem ser tomadas medidas prioritárias para estabelecer uma estrutura para proteger legalmente as mulheres contra a opressão e a violência”, explica.

O Assassino Aranha
Saeed Hanaei nasceu no ano de 1962 e teve uma infância dura, com um péssimo relacionamento com sua mãe, quando sofria diversos abusos. Segundo o próprio Hanaei, ela costumava arranhar suas costas com tanta força que chegava a sair sangue e arranchava pedaços da sua carne com fortes mordidas.
Durante sua vida adulta, ele se voluntariou para a Guerra Irã-Iraque (1980 – 1988) e trabalhava como pedreiro na cidade sagrada de Mashhad, localizada no nordeste do Irã e a 881 km da capital, Teerã. Ele também era casado e teve três filhos.
Motivado pelo discurso misógino e pelo fanatismo religioso, Hanaei matava prostitutas se passando por cliente e as enforcava com o hijab delas e desovava seus corpos. Sua primeira vítima foi morta no dia 7 de agosto de 2000. Uma mulher de 30 anos, que deixou uma filha de nove anos. Ainda viriam mais 15 mortes até agosto de 2001. Entre as assassinadas, a mais nova tinha 18 anos e a mais velha 50. Pelo seu modus operandi, o serial killer foi chamado pela mídia iraniano de “Assassino Aranha”.
O criminoso argumentava que estava “limpando a cidade de Mashhad na corrupção moral”, em nome da sharia, o livro de leis islâmicas. Segundo Hanaei, o gatilho para que ele começasse os assassinatos foi quando sua esposa foi confundida com uma prostituta na rua.
Como é mostrado em “Holy Spider”, tanto a repórter Rahimi quanto a família do assassino em série, acreditavam que Saeed Hanaei seria alvo de repressões da mídia e da sociedade iraniana, mas não foi isso que aconteceu. Comunidades mais conservadoras do islã o perdoaram e exaltaram seus crimes, bem como parte da população. O jornal de extrema-direita, Jomhuri Islami (República Islâmica, em persa) escreveu em uma matéria, “Quem será julgado? Aqueles que procuram erradicar a doença ou aqueles que estão na raiz da corrupção?”. O periódico pertence ao Partido Republicano Islâmico, do aiatolá Ali Khamenei.
Após uma série de audiências, Saeed Hanaei foi julgado culpado dos homicídios e condenado a pena de morte por enforcamento, o que aconteceu no dia 8 de abril de 2002, na Prisão de Mashhad.
Com a grande repercussão do caso, ele foi retratado algumas vezes nas telonas. A primeira vez foi em 2002, com o documentário de Maziar Bahari, “And Along Came a Spider”, que contém uma entrevista com Hanaei. Em 2020, foi a vez do diretor Ebrahim Irajzad contar a história, com o filme “Killer Spider”. A terceira e, até agora, última representação do caso foi o longa abordado, “Holy Spider” (2022), de Ali Abbasi, que chegou a ser indicado ao Festival de Cannes.

Link do artigo: “Experiências e desafios das mulheres prostitutas no Irã: um estudo fenomenológico qualitativo”: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7724161/?report=reader
